Ciência salva vidas, mas sofre com superstição e queda de investimentos

Renato Janine
Renato Janine: Tempos Ásperos / Raphaella Dias | UFMG

Em mesa-redonda, Renato Janine Ribeiro, Soraya Smaili e Luiz Davidovich sugerem caminhos para que o país supere a atual crise

Ciência, educação, cultura, saúde e meio ambiente precisam ser defendidos contra as ações equivocadas do atual governo federal e mais rigorosamente pensadas a partir da próxima gestão. Esse foi um dos apontamentos feitos pelo presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Renato Janine Ribeiro, durante mesa-redonda na manhã de hoje, 8 de março, que integrou a celebração do Dia da Ciência na UFMG. “Vivemos tempos ásperos, pois a ciência, ao mesmo tempo que salva vidas, é atacada pela superstição e desmerecida pelas atuais políticas de governo”, lamentou o professor, que foi ministro da Educação entre abril e setembro de 2015.

COMPARTILHE ESTA INFORMAÇÃO

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email
Share on pinterest
Share on whatsapp

Renato Janine ressaltou o “diferencial” trazido pela ciência no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, em comparação com o manejo adotado em crises anteriores, ocorridas “antes da descoberta do que era invisível”. Como relatou o professor, estima-se que a peste negra, no século 14, tenha matado até a metade da população dos territórios atingidos, em uma época em que se desconhecia a causa da doença. A pandemia da gripe espanhola, ocorrida há pouco mais de 100 anos, quando a ciência ainda era rudimentar, matou cerca de 5% da população mundial. “Graças aos maiores cuidados que temos atualmente com a saúde, à atenção com os doentes e ao rápido surgimento das vacinas, o número relativo de mortes causadas pela covid-19 representa apenas 1% do total da pandemia anterior”, observou.

Outra vantagem decorrente dos avanços tecnológicos no contexto do enfrentamento do coronavírus, segundo o ex-ministro, está nas possibilidades trazidas pela internet. “Muitos trabalhos podem ser realizados on-line, e, graças ao distanciamento social, as pessoas deixaram de ser contaminadas”, argumentou.

Renato Janine lembrou que, ao longo dos últimos anos, o conhecimento sobre medicina tem sido amplamente apropriado pela população leiga, graças aos mecanismos de divulgação científica. Em seu entendimento, seria viável que o mesmo acontecesse com saberes relativos a outras áreas do conhecimento.

“É muito comum, por exemplo, que as famílias conheçam a necessidade de se evitar o consumo excessivo de açúcar e gordura. Mas por que a filosofia política não chega aos lares, a ponto de ensinar aos cidadãos que a democracia não deve conviver com o maniqueísmo? Por que não temos uma divulgação mais ampla das noções de urbanismo? Hoje as cidades são devastadas pela especulação imobiliária, a invasão de carros e a impermeabilização do solo”, analisou.

Soraya Smaili
Soraya Smaili: Cortes em pesquisa científica mesmo durante a pandemia/ Raphaella Dias | UFMG

Muitas perguntas

Como destacou a professora Soraya Smaili, ex-reitora da Universidade Federal de São Paulo, a atual pandemia gerou muitas perguntas e a consequente dependência da ciência, que pode fornecer respostas rápidas sobre temas como “tratamentos da covid-19 e efeitos do pós-covid, soluções em saúde mental, impactos econômicos e sociais”. “Mas, infelizmente, houve no Brasil uma queda brutal nos investimentos em pesquisa a partir de 2018. Mesmo agora, diante da pandemia, quando deveríamos estar incentivando a ciência, estamos retrocedendo; os cortes continuam”, alertou.

Para a docente, os investimentos necessários para que o país se recupere das crises em que está mergulhado devem contemplar vacinas, estruturas para fabricação de medicamentos, infraestrutura de pesquisa, apoio a pesquisadores, concepção de centros dedicados à redução de desigualdades, energia limpa e mudança no clima, entre outras iniciativas.

Soraya Smaili anunciou o lançamento do centro de estudos multidisciplinar Sou Ciência, sediado na Unifesp, que visa promover a informação científica, para fortalecer a conexão entre universidade e sociedade e promover a cidadania.

Luiz Davidovich
Luiz Davidovich: veemência no sonho coletivo/ Raphaella Dias | UFMG

Projeção mundial


Na defesa do argumento de que “não se consolida a ciência de um ano para outro, mas é preciso uma política de Estado que leva décadas”, o professor Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), arrolou alguns exemplos de empresas e instituições que projetaram o Brasil internacionalmente, investindo ou promovendo a pesquisa tecnológica.

“A Embraco é a maior indústria de compressores do mundo. Foi criada com a colaboração do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina. A Natura se vale de conhecimento oriundo de laboratórios de várias universidades e institutos de pesquisa. A Embraer exporta aviões para todo o mundo, e a Weg é protagonista mundial na área de equipamentos elétricos”, enumerou.

Davidovich lembrou que a atual estrutura brasileira de saúde é consequência do que foi criado há muitos anos. “A Fiocruz é de 1900, e o Instituto Butantã, de 1901. Não haveria SUS sem o apoio consistente do CNPq e da Capes, que são de 1951”, relatou.

De acordo com o cientista, o Brasil precisa ingressar na pesquisa em áreas novas, como as tecnologias de intervenção no DNA, de inteligência artificial e de big data. “Tudo isso está acontecendo pelo mundo e podemos participar. Para isso, precisamos de universidades sólidas financiadas pelo Estado”, defendeu.

O presidente da ABC classificou os cortes sucessivos de orçamento nas universidades como “crimes”. “Diante de uma crise econômica, pode-se deixar de fazer uma estrada ou uma praça. Mas, ao cortar a bolsa de um pesquisador, você prejudica, em longo prazo, o futuro do país. Os tempos atuais requerem veemência no sonho coletivo e na defesa do futuro”, defendeu o professor.

A mesa-redonda foi mediada pela reitora Sandra Regina Goulart Almeida.

Matheus Espíndola

Fonte:https://ufmg.br/comunicacao/noticias/ciencia-salva-vidas-mas-sofre-com-a-supersticao-e-queda-de-investimentos

COMPARTILHE ESTA INFORMAÇÃO

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email
Share on pinterest
Share on whatsapp

NOSSOS ARTIGOS ESPECIAIS

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

ÚLTIMOS ARTIGOS

Nossas Redes Sociais