
Estudo recente da Faculdade de Saúde Pública da USP trouxe um mapa detalhado mostrando o quanto alimentos ultraprocessados compõem a dieta dos habitantes dos 5.570 municípios do Brasil.
Publicada em junho de 2025 na Revista de Saúde Pública, a pesquisa do pesquisador de pós-doutorado Leandro Cacau utilizou dados do Censo Demográfico de 2010, combinados com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018 do IBGE, para estimar a participação calórica desses produtos na alimentação local.
O levantamento aponta que, em média, 20,2% das calorias ingeridas pelos brasileiros vêm de alimentos ultraprocessados, com extrema variação entre regiões: algumas cidades do Sul apresentam respostas superiores a 30%, como Florianópolis (SC), enquanto localidades no Nordeste, como Aroeira do Itaim (PI), registram índices inferiores a 6%.
Detalhes da metodologia e implicações dos resultados
Para gerar essas estimativas, os pesquisadores aplicaram um modelo estatístico avançado, a regressão linear múltipla, que considerou variáveis como idade, sexo, escolaridade, renda, raça/cor e localização.
Este método permitiu preencher lacunas de dados em municípios onde não havia informação direta, dentro de limitações reconhecidas, como o uso do Censo de 2010, compensado por fatores de correção baseados em avaliações recentes nos centros urbanos.
Leandro Cacau, autor principal da pesquisa, comenta a importância do estudo:
O consumo alto de ultraprocessados em algumas regiões foi bem alarmante, por outro lado baixos valores não significam uma dieta saudável.
Além disso, o estudo identificou que o consumo é geralmente maior entre mulheres, decresce com a idade e cresce conforme aumentam a renda e escolaridade.
Os resultados mostram uma disparidade clara entre áreas urbanas e rurais, com uma maior presença dos ultraprocessados nos centros urbanos.
Avanços e desafios nas políticas públicas locais
Com o aumento dessas evidências, municípios começaram a agir para conter o consumo excessivo de ultraprocessados.
Em janeiro de 2023, Niterói sancionou uma lei que proíbe a venda desses alimentos em cantinas escolares, visando prevenir obesidade infantil e promover hábitos alimentares mais saudáveis.
No Rio de Janeiro, em junho de 2023, a proibição foi ampliada para escolas públicas e privadas, proposta elaborada por organizações civis como o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).
O Sul do país concentra os maiores índices de consumo, e cidades como Curitiba e Porto Alegre ultrapassam 26% de calorias da dieta vindas de ultraprocessados.
Esse cenário reforça a necessidade de políticas locais específicas, alinhadas à estratégia federal “Alimenta Cidades”, lançada em 2024 pelo Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome (MDS), que apoia 60 municípios prioritários para ações de segurança alimentar.
Leandro Cacau destaca o papel dos dados na formulação dessas iniciativas:
Nossos principais objetivos eram que esses resultados fossem úteis para a tomada de decisão, especialmente para pensar políticas públicas e realizar ações mais locais. Queremos que os municípios possam utilizar esses resultados para desenvolver estratégias específicas.
Qualidade nutricional: além da simples escassez alimentar
Mesmo com o Brasil saindo do mapa da fome, o acesso a uma alimentação saudável ainda é um desafio.
Pesquisas do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP indicam que famílias de baixa renda e residentes em áreas rurais consomem bastante alimentos básicos e minimamente processados, mas frutas, verduras e legumes — fundamentais para diversidade alimentar — ainda são escassos.
A pesquisadora Maria Laura Louzada, coautora do estudo, ressalta um ponto crítico:
O consumo excessivo de ultraprocessados está ligado ao aumento de doenças crônicas. Essa pesquisa ajuda a entender onde estão os maiores desafios, porque traz estimativas – município a município – sobre a participação desses produtos na dieta. Mas ainda precisamos avançar: faltam dados mais desagregados por gênero, faixa de renda e etnia, e também indicadores sobre a diversidade e a qualidade nutricional das dietas.
Ela também salienta a importância de expandir políticas como a proibição nas cantinas escolares e usar os dados para apoiar programas municipais de educação nutricional, agricultura familiar e incentivos para ampliar o consumo de alimentos frescos:
Além disso, os resultados do estudo podem embasar programas municipais de cozinhas solidárias, educação nutricional, políticas de incentivo à agricultura familiar e à compra institucional de hortifrutis, e até debates sobre subsídios ou taxações que tornem os alimentos frescos mais acessíveis e desestimulem o consumo excessivo de ultraprocessados.
Fontes e referência do estudo
A pesquisa detalhada que forneceu os dados utilizados nesta análise foi publicada como:
Cacau, L. T. Estimativa da participação de alimentos ultraprocessados nos municípios brasileiros. Revista de Saúde Pública, 2025.
Assim, esta análise atualizada e aprofundada do consumo de ultraprocessados no Brasil oferece base científica e informativa para a formulação de políticas públicas e estratégias locais visando uma alimentação mais saudável e a diminuição dos impactos nocivos desses alimentos nas populações urbanas e rurais do país.
