
Pesquisadores da USP e da Nigéria mostra que resíduos de medicamentos populares afetam gravemente o fitoplâncton, ameaçando a produção de oxigênio e a vida aquática.
A presença de analgésicos amplamente consumidos, como diclofenaco, ibuprofeno e paracetamol, nas águas superficiais pode estar colocando em risco a base da cadeia alimentar marinha.
Uma pesquisa publicada em 27 de junho de 2024 revelou que esses medicamentos, mesmo em concentrações muito baixas, são capazes de reduzir a diversidade de fitoplâncton, organismos essenciais para a produção de oxigênio e para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.
Pesquisa Internacional e Metodologia Inovadora
O estudo foi conduzido por cientistas do Instituto de Biociências da USP em parceria com a Universidade Ahmadu Bello, da Nigéria.
Os experimentos aconteceram em Zaria, no norte da Nigéria, utilizando mesocosmos — sistemas experimentais que simulam ambientes naturais de forma controlada.
Ao longo de 28 dias, 24 desses sistemas receberam água de um lago local contaminada com diferentes doses dos três analgésicos, permitindo a análise das mudanças na estrutura e dinâmica das comunidades de fitoplâncton.
Resultados Preocupantes: Impactos Profundos no Fitoplâncton
Os resultados do experimento foram alarmantes: houve uma queda significativa na variedade de espécies, com algumas, como as algas verdes do gênero Actinastrum, enfrentando risco de extinção local.
Além disso, as populações de fitoplâncton apresentaram sinais de estresse oxidativo, comprometendo funções vitais e podendo desencadear desequilíbrios em toda a cadeia alimentar.
O Papel Vital do Fitoplâncton
Segundo Mathias Ahii Chia, professor do Departamento de Ecologia do IB-USP, sem esses organismos, não existe produção primária, não existem ecossistemas e não tem oxigênio suficiente para respirar. Ele destaca que o fitoplâncton é fundamental não só para os ambientes aquáticos, mas também para a manutenção do oxigênio na atmosfera.
Por Que Esses Medicamentos São Tão Preocupantes?
Ramatu Idris Sha’aba, pesquisadora da Universidade Ahmadu Bello e autora principal do artigo, explica que a escolha desses três medicamentos se deve à sua ampla utilização e à dificuldade de remoção nos sistemas convencionais de tratamento de esgoto. São quimicamente estáveis, apresentam alta resistência à biodegradação e são frequentemente detectados em águas superficiais devido à remoção incompleta durante o tratamento [de esgoto], afirma.
Desafios e Novos Caminhos para a Pesquisa
O estudo destaca a importância de investigar os efeitos combinados de diferentes fármacos, já que o ambiente natural raramente está exposto a apenas uma substância isolada.
Os autores alertam que ainda há muito a ser compreendido sobre os impactos desses poluentes emergentes, especialmente em relação à produção de pigmentos essenciais para o fitoplâncton — tema que será aprofundado em futuras publicações do grupo.
Um Chamado à Ação
A pesquisa reforça a urgência de repensar práticas de descarte e tratamento de resíduos farmacêuticos, além de ampliar o debate sobre o uso consciente de medicamentos e seus efeitos colaterais ambientais.
Fonte dos dados e estudo:
Estudo “Single and combined effects of diclofenac, ibuprofen, and paracetamol on phytoplankton community structure and dynamics”, conduzido pelo Instituto de Biociências da USP e Universidade Ahmadu Bello, Nigéria.
- Fonte: https://jornal.usp.br/
