
Cientistas da Escola de Educação Física e Esporte da USP mergulharam em uma questão instigante: ao realizar uma tarefa física e uma tarefa mental simultaneamente, quem leva vantagem na disputa por energia — o cérebro ou o corpo?
O estudo, liderado pelas pesquisadoras Lara de Souza e Luciane Aparecida Moscaleski e orientado por Alexandre Moreira, monitorou atletas competitivos durante atividades que exigiam esforço físico intenso e desafios cognitivos, usando aparelhos de eletroencefalograma (EEG) para analisar a atividade cerebral em tempo real.
Como Foi o Experimento
Treze atletas habituados a treinos frequentes passaram por três sessões em laboratório.
Em uma das situações, precisaram pedalar na maior intensidade possível por 12min numa bicicleta ergométrica, enquanto, ao mesmo tempo, resolviam o famoso teste Stroop (no qual devem identificar rapidamente a cor de uma palavra, ignorando seu significado).
Os pesquisadores registraram desempenho físico, tempo de resposta e precisão nas tarefas cognitivas, além do esforço percebido.
Resultados Surpreendentes: Prioridade Para o Cérebro
Quando corpo e mente exigiam energia ao mesmo tempo, o cérebro mostrou sua força ao manter o desempenho nas tarefas cognitivas, já o rendimento físico caiu — a cadência durante o exercício ficou menor e mais irregular.
Segundo os registros do EEG, aumentaram oscilações cerebrais associadas ao esforço mental e controle motor, confirmando que o sistema nervoso central é especialista em garantir que suas funções cognitivas não sejam prejudicadas, mesmo que isso custe alguns giros na pedalada.
A Teoria do Cérebro Egoísta explica que, em momentos de escassez de energia, o cérebro tende a priorizar seu próprio funcionamento para garantir que suas funções essenciais continuem ativas. Essa estratégia faz com que ele direcione a maior parte dos recursos energéticos para si mesmo, mesmo que isso cause uma diminuição no desempenho físico do corpo.
Recomendações Para Treinadores e Atletas
Os achados sugerem que treinos esportivos devem ir além dos aspectos físicos e considerar também desafios mentais simultâneos, já que, no calor da competição, decisões rápidas e a manutenção do foco podem ser cruciais para o resultado.
O uso de recursos tecnológicos para monitorar a atividade cerebral pode ajudar a evitar sobrecarga mental e aprimorar o treinamento.
Limitações e Continuidade
O estudo destaca ser necessário cautela ao generalizar os resultados, pois contou com poucos participantes e atletas de diferentes modalidades.
Pesquisas futuras com amostras maiores e mais homogêneas podem ampliar o entendimento deste fenômeno.
Fonte científica citada e recomendada para leitura:
DE SOUZA, L.; MOSCALESKI, L. A.; MOREIRA, A. “The competition between brain and body: Does performing simultaneous cognitive and physical tasks alter the cortical activity of athletes compared to performing these tasks in isolation?” Physiology & Behavior.
