
Uma investigação recente realizada por pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP trouxe à tona um cenário preocupante: superbactérias, microrganismos extremamente resistentes a antibióticos, estão sendo encontradas em solos agrícolas, águas superficiais e até mesmo em animais silvestres do interior de São Paulo.
O fenômeno, antes restrito principalmente aos ambientes hospitalares, agora se espalha por ecossistemas diversos, representando uma ameaça silenciosa para humanos, animais e o meio ambiente.
Detecção Inédita de Resistência em Ambientes Comuns.
Dois estudos recentes, publicados em revistas científicas de alto impacto, detalham a presença e o comportamento desses microrganismos:
Estudo 1:
Pesquisadores investigaram duas espécies do gênero Klebsiella – K. pneumoniae e K. quasipneumoniae – tradicionalmente associadas a infecções graves, como pneumonia, meningite e infecções sanguíneas.
As amostras foram coletadas em solos agrícolas usados no cultivo de limão, goiaba e figo, em Jardinópolis (SP), em 2022, e em águas superficiais de Ituverava e Franca (SP), em 2020.
Os resultados revelaram um amplo perfil de resistência, inclusive aos carbapenêmicos, antibióticos de última linha.
Pela primeira vez no Brasil, foi detectada a presença de duas carbapenemases – enzimas que degradam carbapenêmicos – em uma mesma bactéria isolada de fontes aquáticas.
O estudo aponta que a presença de Klebsiella resistente a esses antibióticos aumentou principalmente em ambientes aquáticos poluídos, e sugere que esse fenômeno também pode estar ocorrendo nos solos, embora os dados ainda sejam limitados.
Estudo 2:
Outro trabalho, focado na bactéria Acinetobacter bereziniae, identificou cepas resistentes em uma tartaruga semiaquática infectada.
As análises mostraram genes de resistência antimicrobiana inéditos no Brasil, com potencial de transferência para outras bactérias.
As cepas analisadas apresentaram seis ou mais genes de resistência, número considerado elevado e possivelmente associado à pressão seletiva do uso intensivo de antimicrobianos. Também foram identificados genes de virulência conservados, que reforçam o potencial patogênico dessas linhagens.
A análise revelou a presença de genes de resistência antimicrobiana até então inéditos no Brasil e, nessa espécie, esses genes podem ser transferidos para outras bactérias, o que representa risco de ‘ampliar ainda mais a resistência e dificultar o tratamento de infecções no futuro’.
Opiniões e Citações Diretas dos Pesquisadores
Rafael da Silva Rosa, doutorando e pesquisador do estudo, orientado pela professora Eliana Guedes Stehling, afirma:
As linhagens resistentes podem ser selecionadas pelo uso de fertilizantes orgânicos ou pela irrigação com água poluída. As bactérias podem contaminar frutas e vegetais e, em humanos, a transmissão pode ocorrer pelo contato direto com animais e produtos contaminados, ou pelo consumo de alimentos crus ou malcozidos.
A presença desses genes conservados indica que essas linhagens têm potencial patogênico e representam risco à saúde humana e animal, reforçando a necessidade de vigilância dentro da abordagem de Saúde Única.
Urgência e Abordagem One Health
O intercâmbio genético entre bactérias é facilitado por elementos móveis, como plasmídeos, transposons e integrons, que atuam como “veículos” para genes de resistência.
Esse mecanismo, somado à produção de carbapenemases, torna as superbactérias uma ameaça crescente, circulando de forma silenciosa entre a produção agrícola, animais e centros urbanos.
Essa circulação em ecossistemas diversos acelera a transmissão desses microrganismos para humanos e animais
Esse número é elevado, e pode estar associado a uma possível pressão seletiva decorrente do uso intensivo de antimicrobianos nesses países.
A Organização Mundial da Saúde já reconhece o combate às superbactérias como um desafio global, destacando a importância da abordagem One Health (Saúde Única) para conter sua disseminação.
Por que esse tema é urgente e inédito?
- Ineditismo: Detecção de duas carbapenemases em uma única bactéria isolada de fontes aquáticas no Brasil é inédita.
- Urgência: O aumento da resistência em ambientes comuns eleva o risco de surtos difíceis de tratar, podendo impactar diretamente a saúde pública e a segurança alimentar.
- Relevância: O tema se conecta diretamente com inovações em pesquisa, educação e políticas públicas para saúde e meio ambiente.
- Fonte: https://jornal.usp.br
