
Um grupo de cientistas da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga, deu um passo importante rumo à construção civil mais sustentável.
Eles criaram um tipo de cimento inovador, que une fibras vegetais e óxido de magnésio, resultando em um material capaz de absorver dióxido de carbono (CO₂) e apresentar maior durabilidade.
Ao contrário do cimento tradicional, que utiliza compostos de cálcio, o novo ligante tem como base principal o óxido de magnésio.
Essa mudança não só diminui a alcalinidade do produto, deixando-o menos agressivo para as fibras vegetais, mas também permite que o CO₂ seja incorporado ao material durante o processo de cura. Assim, o cimento se torna mais resistente e menos prejudicial ao meio ambiente.
Captura de Carbono e Sustentabilidade
A proposta é aproveitar o CO₂ gerado pela produção de etanol de cana-de-açúcar, um dos principais biocombustíveis brasileiros. Com isso, o novo cimento pode ajudar a reduzir as emissões de gases poluentes e fortalecer a sustentabilidade do setor energético.
De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), São Paulo é o maior produtor de etanol do Brasil, respondendo por 45% da produção nacional, com 14,7 milhões de metros cúbicos em 2020.
Das 360 unidades autorizadas a produzir etanol, 149 estão em São Paulo, com capacidade instalada de 169,4 mil m³/dia.
Estima-se que essa produção gere 11,3 milhões de toneladas de CO₂ por ano (https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/noticias/anp-divulga-producao-de-etanol-em-2020).
Testes realizados pelos pesquisadores indicaram que o novo cimento desenvolvido é capaz de capturar cerca de 100 kg de CO₂ por metro cúbico.
O projeto continua em andamento, com o objetivo de aumentar ainda mais a taxa de captura e mineralização do dióxido de carbono.
Durabilidade e Benefícios Ambientais
O processo de cura do novo cimento envolve a chamada carbonatação acelerada. Esse método não só captura CO₂, como também reduz o pH do material, o que favorece a preservação das fibras vegetais e melhora a ecoeficiência do compósito.
Os produtos formados, principalmente carbonatos de magnésio, aumentam a densidade, reduzem a absorção de água e aprimoram as propriedades mecânicas do material.
Essa tecnologia foi detalhada em artigo científico publicado na revista Construction and Building Materials, intitulado “Assessment of carbonation as a complementary strategy to increase the durability of Magnesium Oxysulfate (MOS)-based fiber cement boards”
Opinião dos Especialistas
Adriano Azevedo, pesquisador da FZEA/USP, explica:
A produção de cada tonelada de etanol gera aproximadamente 956,5 kg de CO₂. Contudo, o carbono presente no etanol tem origem vegetal, principalmente da cana-de-açúcar, no contexto brasileiro, e é capturado da atmosfera durante a fotossíntese. Assim, parte das emissões de CO₂ geradas no processo industrial, bem como todo o CO₂ emitido durante a combustão do etanol, pode ser compensada pelo crescimento da biomassa vegetal. Em um ciclo ideal, as emissões líquidas seriam próximas de zero, configurando o etanol como um biocombustível de baixo carbono.
Ele acrescenta:
Portanto, o desenvolvimento de tecnologias complementares para reaproveitamento e captura de carbono nesse contexto pode contribuir de forma decisiva para a descarbonização da matriz energética nacional, fortalecendo a sustentabilidade do setor de biocombustíveis e colaborando com os esforços globais de mitigação das mudanças climáticas.
Próximos Passos
O projeto segue em desenvolvimento, com foco em aprimorar o desempenho técnico e ambiental do material.
Os pesquisadores buscam adaptar as etapas do processo produtivo para viabilizar a implementação em larga escala, tornando o novo cimento uma alternativa real para a construção civil sustentável.
Fontes dos Estudos, Pesquisas e Dados
Dados da ANP sobre produção de etanol:
São Paulo foi o maior produtor de etanol do Brasil em 2020, com 14,7 milhões de metros cúbicos (45% da produção nacional).
Das 360 unidades autorizadas a produzir etanol, 149 estão em São Paulo, com capacidade instalada de 169,4 mil m³/dia. Estima-se que essa produção gere 11,3 milhões de toneladas de CO₂ por ano.
Artigo científico:
Assessment of carbonation as a complementary strategy to increase the durability of Magnesium Oxysulfate (MOS)-based fiber cement boards.
Opinião e citação direta do pesquisador Adriano Azevedo.
- Fonte: https://jornal.usp.br/
