
Cannabis Medicinal no Brasil: Redescoberta de um Remédio Centenário que Pode Mudar o Futuro da Saúde em 2025
O Passado Esquecido: Quando a Maconha Era Sinônimo de Tratamento
Muito antes de se tornar alvo de proibições e estigmas, a cannabis integrava o arsenal terapêutico brasileiro.
Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, médicos prescreviam preparados à base da planta para tratar enfermidades variadas, desde dores persistentes até distúrbios neurológicos.
Nas farmácias, era possível encontrar extratos, pílulas e até cigarros medicinais com maconha em sua composição. Bastava apresentar uma receita médica para adquirir o medicamento.
A mudança de paradigma começou a se desenhar com o avanço de ideias higienistas e racistas, que associaram o uso da cannabis a grupos marginalizados, especialmente à população negra.
O resultado foi um apagamento gradual desse capítulo da medicina brasileira, conforme aponta a pesquisa histórica recente.
A Medicina que Apagou sua Própria História
O historiador Saulo Carneiro, em sua dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), revela que, ao contrário do senso comum, a maconha já foi amplamente utilizada em consultórios e farmácias, além de ser parte do cotidiano em rituais religiosos e festas populares.
No senso comum, a maconha sempre foi uma planta diabólica, uma droga, mas em minha pesquisa mostro que ela estava dentro dos consultórios e foi amplamente comercializada nas farmácias, enquanto era utilizada pela medicina popular e pela medicina alternativa, e, socialmente, nos candomblés, nos batuques nas rodas de samba, nas feiras. O que ocorre atualmente no Brasil, que está revendo a política de drogas e o uso e o controle da maconha, não é algo novo. Há um passado de utilização medicinal da maconha no país, que, de certa forma, foi apagado. E foi apagado pela própria medicina, frisa o historiador.
O preconceito e o racismo científico, segundo Carneiro, influenciaram diretamente a condenação do uso medicinal da maconha. A “lei do pito de pango”, de 1830, já diferenciava penas para usuários livres (multa) e escravizados (prisão), evidenciando a discriminação racial.
Novos Tempos, Velhos Preconceitos: O Retorno da Cannabis Medicinal
Apesar das barreiras impostas ao longo do século XX, o cenário começa a mudar com avanços científicos e pressão social. Em 2014, o canabidiol (CBD) foi utilizado pela primeira vez no Brasil para tratar epilepsia refratária, após decisão judicial. Em 2015, a Anvisa regulamentou o uso medicinal do CBD e, em 2019, autorizou sua comercialização em farmácias.
Em novembro de 2024, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) autorizou o cultivo de maconha para fins medicinais, restrito a pessoas jurídicas e com baixo teor de THC. Recentemente, o governo federal criou um grupo de trabalho para discutir o cultivo de cânhamo industrial para fins medicinais.
Propriedades e Potencial Terapêutico
A cannabis medicinal, segundo a pesquisa histórica, era indicada para doenças como Parkinson, enxaqueca, enterocolites, crises do tabes e neurastenia intestinal, sendo reconhecida por suas propriedades calmantes, analgésicas e anti-inflamatórias.
Grande parte da cannabis usada como medicamento era importada e, em alguns casos, já chegava manufaturada ao país.
Vale notar que essas receitas ou preparados químicos de marca são uma expressão do amplo emprego terapêutico do extrato de cannabis, usado na forma magistral por inúmeros pacientes, a partir das receitas dispensadas pelos seus médicos, escreve Saulo Carneiro em sua dissertação.
O Papel da Pesquisa e da Educação no Futuro da Cannabis
A revalorização da cannabis medicinal no Brasil está diretamente ligada ao avanço da pesquisa científica e à maior conscientização da sociedade.
Estudos recentes demonstram o potencial terapêutico da planta para diversas condições clínicas, e o mercado nacional acompanha tendências globais de inovação e personalização de tratamentos.
Segundo o Instituto Maple, em 2025, a cannabis medicinal se consolida como opção terapêutica importante, impulsionada por pesquisas, inovações tecnológicas e maior aceitação social.
O desenvolvimento de novas formulações, métodos de administração e investimentos em educação são fundamentais para consolidar esse novo paradigma.
O pesquisador Paulo Jordão, da Universidade Federal do Piauí, destaca a importância da intersecção entre ciência e inovação para o avanço do setor:
O que são inovações? São ideias que chegam ao mercado e têm sucesso. Existe muita ideia e muitas não vão para frente. O mercado de cannabis já existe há muito tempo, sendo utilizado há séculos. Entretanto, a área medicinal se desenvolveu recentemente, com o suporte de várias ciências, como a biologia e a química.
Estudos, Pesquisas e Dados
Estudo publicado na dissertação de Saulo Carneiro (PPGHCS/COC/Fiocruz):
Analisando os debates médicos sobre o tema, Carneiro observou a constituição de dois grupos: o coletivo clínico-farmacêutico, que reunia profissionais das duas áreas e usava a planta para fins medicinais, em consonância com a ciência produzida em outros países; e o coletivo medicina social, formado pelos que se vinculavam ao eugenismo, à psiquiatria, à higiene social, à medicina legal e à criminologia, e focavam no uso e nos efeitos da erva no comportamento dos usuários, condenavam o uso social da maconha.
Dados do Instituto Maple sobre tendências da indústria de cannabis em 2025:
A cannabis medicinal em 2025 se beneficiará de avanços tecnológicos em diversas áreas, desde o cultivo até o tratamento e o acompanhamento dos pacientes. Essas inovações têm o potencial de revolucionar o acesso, a eficácia e a personalização dos tratamentos com cannabis medicinal, melhorando a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.
Pesquisa apresentada no Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal:
A farmacêutica Marissa El Hajje trouxe um estudo inovador, intitulado ‘Estudos in vitro e in vivo de Indução de Apoptose em Mieloma Múltiplo por óleo de Cannabis’, que demonstrou uma eficácia 30% maior no tratamento de leucemia em comparação às terapias convencionais.
Perspectivas para o Futuro
A cannabis medicinal no Brasil está em um momento decisivo. O resgate de seu passado terapêutico, somado ao avanço da ciência e à redução do estigma, abre caminho para inovações que podem transformar o tratamento de milhões de pessoas.
O desafio agora é garantir que a pesquisa, a educação e a inovação continuem guiando esse processo, para que a cannabis seja vista como o que realmente é: uma ferramenta poderosa para a saúde.
Fonte das citações: https://agencia.fiocruz.br/maconha-ja-foi-remedio-no-brasil-do-seculo-19
