
Proteína Já atinge necessidades no Brasil: O verdadeiro desafio é diversificar a dieta, alertam pesquisadores (25/08/2025)
Não é a quantidade de proteína que preocupa, mas a variedade alimentar
A proteína, muitas vezes tratada como o nutriente principal no prato do brasileiro, pode não ser a prioridade que a maioria imagina.
Pesquisas recentes realizadas por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da USP, em colaboração com o Instituto de Estudos Avançados e o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde, indicam que a população brasileira geralmente consome proteína em quantidades suficientes, salvo casos de desnutrição.
O foco agora, segundo esses especialistas, deve estar em ampliar o consumo de alimentos frescos, especialmente vegetais, frutas e verduras.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a recomendação mínima para a ingestão de proteínas é de 0,8 grama por quilo de peso corporal, o que para um adulto médio corresponde, por exemplo, a cerca de 180 gramas de peito de frango em um dia.
A Pesquisa de Orçamentos Familiares revelou que apenas 3% dos brasileiros entre os 20% mais pobres consomem menos que essa quantidade. Quando o consumo calórico é adequado, também o consumo proteico costuma estar dentro do esperado, explica Nadine Marques, doutora em Saúde Pública pela USP, reforçando que o grande problema hoje não é falta de proteína, mas a baixa diversidade alimentar.
Por sua vez, o pesquisador Ricardo Abramovay, do Instituto de Estudos Avançados, destaca que a carência proteica em pessoas desnutridas está ligada à insuficiência calórica total e não ao déficit específico de proteínas.
Ele adverte que não há justificativa para aumentar muito a ingestão proteica, exceto para atletas de alto rendimento, cujo consumo recomendado chega a no máximo 2 gramas por quilo de peso corporal.
O paradoxo da obsessão proteica
Os especialistas alertam para a armadilha de focar excessivamente em um único nutriente, em detrimento do conjunto da alimentação.
Dados da pesquisa Vigitel, realizada pelo Ministério da Saúde em 2023, apontam que 79% dos adultos residentes nas capitais brasileiras não atingem a ingestão diária recomendada pela OMS de pelo menos 400 gramas de vegetais, frutas e verduras.
Abramovay ressalta: O Guia Alimentar Brasileiro já aponta que o que realmente importa para uma dieta saudável, especialmente para crianças, é a variedade alimentar, e não um alto consumo de carne. Ele acrescenta ainda que não se trata de eliminar a carne da dieta, mas sim de incentivar sua redução e substituição consciente por outras fontes alimentares.
Segurança alimentar e desigualdades persistentes
O Relatório da ONU sobre Insegurança Alimentar Mundial (Sofi 2024) informa que o Brasil obteve uma redução de quase 85% na insegurança alimentar grave em 2023, resultado de políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos.
Mesmo assim, Nadine Marques reforça que muitas pessoas ainda enfrentam dificuldades para acessar alimentos suficientes e de qualidade nutricional adequada.
Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) indicam que 253 municípios brasileiros possuem mais de 10% de crianças menores de cinco anos com desnutrição aguda.
A pesquisadora alerta sobre as desigualdades no acesso e sobre a predominância, em áreas de baixa renda, de alimentos ultraprocessados baratos e a falta de feiras e mercados com produtos naturais, que têm preços elevados.
A erradicação da fome não passa apenas pela transferência de renda, mas por uma transformação do sistema agroalimentar global, afirma Ricardo Abramovay, enfatizando o papel das instituições em moldar as escolhas alimentares da população.
Impactos ambientais da produção de carne
O sistema produtivo global é fortemente centrado na pecuária, que ocupa cerca de 70% das terras cultiváveis não cobertas por desertos ou geleiras, seja para pasto direto ou para produção de ração.
O modelo intensivo atual contribui para o desmatamento, emissões de metano e aumento da resistência a antimicrobianos em razão do uso preventivo massivo de antibióticos.
O pesquisador lembra que a produção crescente de carne só faria sentido se houvesse uma carência desse alimento, o que não é o caso, pois o consumo mundial já é excessivo.
Para mitigar esses impactos, Abramovay aponta para o potencial da pecuária regenerativa, embora reconheça que a adoção em larga escala exige mudanças estruturais significativas.
A história e o mito do déficit proteico
Há cerca de 50 anos, o ensaio “The Great Protein Fiasco”, de Donald McLaren, questionava a ideia de que a proteína deveria ser o foco principal no combate à desnutrição, criticando políticas de desenvolvimento que privilegiavam produtos industrializados ao invés de fontes vegetais locais.
Desde a década de 1930, vários organismos internacionais atribuíram ao déficit proteico o problema central da desnutrição infantil nos países pobres, influenciados por interesses econômicos, como na exportação de leite em pó pelos EUA, como observa Ricardo Abramovay.
Um olhar para a educação alimentar
Nadine Marques reforça a importância da educação alimentar e nutricional para promover autonomia e escolhas conscientes desde a infância. Entender a lógica de produção dos alimentos e sua diversidade cultural ajuda a fazer melhores escolhas na vida adulta, destaca.
Ela também chama atenção para o papel de influenciadores digitais na divulgação de informações sobre proteínas e dietas, apontando para a necessidade de responsabilidade no conteúdo propagado.
Fontes dos dados e pesquisas:
- Organização Mundial da Saúde (OMS) – Recomendações proteicas e consumo energético.
- Pesquisa de Orçamentos Familiares – Consumo protéico por estrato socioeconômico no Brasil.
- Pesquisa Vigitel 2023, Ministério da Saúde – Consumo de vegetais, frutas e verduras.
- Relatório ONU Sofi 2024 – Segurança alimentar no Brasil.
- Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) – Dados sobre desnutrição infantil.
- Artigo “The Great Protein Fiasco”, Donald McLaren.
- Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP, Instituto de Estudos Avançados e Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens).
