USP e Butantan estudam fatores que ampliaram a febre oropouche

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A febre oropouche tem se espalhado rapidamente nas regiões Norte e litoral brasileiro
O vetor maruim é responsável pela maioria das transmissões da febre oropouche

Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado um aumento alarmante nos casos da febre oropouche, uma doença transmitida por insetos e pouco conhecida fora da região amazônica.

Se em 2020 e 2021 estavam confirmados pouco mais de 100 casos, em 2024 o número explodiu para quase 11 mil, com registros em diversos estados e duas mortes confirmadas.

Como o vírus se espalha e onde está concentrado

O agente transmissor principal é o Culicoides paraensis, conhecido popularmente como maruim, um pequeno inseto que se desenvolve em matéria orgânica acumulada, como folhas em plantações de cacau e banana.

Diferente do mosquito Aedes aegypti, que prefere água parada em áreas urbanas, o maruim prospera em ambientes rurais com vegetação específica.

Estudos de modelagem espacial feitos por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto Butantan apontam que a região Norte do Brasil mantém a maior incidência de grupos concentrados de casos, seguida por estados do Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro.

Os principais motores do avanço da febre Oropouche

Pesquisas indicam que fatores climáticos, como o aumento das temperaturas médias e o volume das chuvas, têm relação direta com a proliferação do vírus.

A estabilidade térmica (isotermalidade) influencia o tempo de incubação no inseto, acelerando a transmissão em dias quentes.

Segundo Camila Lorenz, pesquisadora do Instituto Butantan, temperaturas médias e precipitação foram os fatores com relação mais expressiva com os casos.

Além do clima, as transformações no uso da terra — como o crescimento de monoculturas de soja e pastagens em regiões antes cobertas por mata densa — favorecem a explosão populacional do vetor, já que ambientes naturais com maior diversidade biológica tendem a controlar melhor o crescimento dos insetos.

A importância das mudanças genéticas no vírus

Nos últimos anos, o vírus sofreu alterações genômicas que podem ter ampliado sua capacidade de dispersão e contaminação.

Francisco Chiaravalloti, professor da USP, enfatiza que a população da Amazônia, historicamente endêmica, deveria estar protegida, mas isso não aconteceu. Variantes recombinantes parecem reduzir a eficácia da imunidade adquirida, aumentando a suscetibilidade à reinfecção.

A hipótese mais recente sugere que outros mosquitos, como o Culex quinquefasciatus, tradicionalmente não relacionados à transmissão, possam estar envolvidos no ciclo urbano da doença, embora ainda sejam necessárias pesquisas mais aprofundadas.

Fatores socioeconômicos ampliam o risco

Áreas com altos índices de pobreza, baixo Produto Interno Bruto e acesso restrito a serviços de saúde e saneamento têm maior vulnerabilidade aos surtos.

Maria Anice Sallum, epidemiologista da USP, assinala que municípios em clusters de alto risco são frequentemente caracterizados por maiores taxas de pobreza e acesso limitado à assistência médica e saneamento básico.

Nas comunidades ribeirinhas da Amazônia, a dificuldade em realizar testes e obter tratamento agrava a subnotificação dos casos, o que dificulta o acompanhamento e controle da epidemia.

Um alerta para políticas públicas eficazes

O estudo aponta que o conhecimento detalhado das regiões de maior risco é essencial para direcionar ações de controle do vetor e reforçar a infraestrutura de saúde. Camila Lorenz conclui: Essa integração da academia com a realidade é interessante porque a gente pode não só direcionar ações na saúde, mas exigir políticas públicas de melhoria nas condições de vida da população.

Com as mudanças climáticas em curso, desmatamento e expansão urbana desordenada, a prevenção da febre oropouche demanda uma abordagem multidisciplinar, que una ciência, saúde pública e políticas sociais.

Fontes dos dados e pesquisas:

Estes resultados foram obtidos a partir de informações fornecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), WorldClim – Global Climate Data e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), conforme levantamento realizado por pesquisadores da USP e Instituto Butantan.

Portal Universidade

Fabio Herdy, bacharel em Comunicação pela UCAM, com 23 anos de experiência em empresa jornalística, especializado em Webwriting, tem ampla experiência em produção de reportagens escritas, audiovisuais e produção de conteúdo para redes sociais. Conheça mais em Quem Somos.

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